O endividamento das famílias com renda de até três salários mínimos alcançou 84,9% em julho, marcando o quarto recorde consecutivo na leitura da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
A fatia da renda comprometida com dívidas nessa faixa chegou a 30,6%, enquanto a proporção de inadimplentes sem condições de quitar débitos subiu para 17,8%. O cenário evidencia que o crédito vem sendo utilizado por grande parte da população de menor renda como uma extensão artificial do orçamento para cobrir despesas básicas do mês.
CONTEXTO A alta persistente do endividamento na base da pirâmide restringe o ritmo de consumo e pressiona a confiança das famílias, conforme sinalizado por indicadores da FGV. Além disso, o uso recorrente de modalidades de crédito de curto prazo e juros altos — como rotativo do cartão e cheque especial — cria uma dinâmica de bola de neve, tornando o reequilíbrio financeiro das famílias de baixa renda um desafio estrutural para a economia brasileira.
POR QUE É IMPORTANTE?
O avanço reflete a combinação de juros elevados, menor flexibilidade orçamentária e a expansão da bancarização no pós-pandemia, que ampliou o acesso ao crédito. Especialistas apontam que programas de renegociação, como o Desenrola, ajudam a tratar o estoque de dívidas existente, mas não impedem a tomada de novos empréstimos emergenciais com taxas elevadas.
OPINIÃO DO EDITOR
O recorde consecutivo no endividamento da baixa renda é um sintoma claro de que o crescimento econômico e a estabilidade macroeconômica ainda não alcançaram a ponta mais vulnerável da sociedade de forma sustentável.
Quando o crédito deixa de ser ferramenta de investimento ou consumo planejado e passa a funcionar como um “puxadinho” para pagar contas básicas, o risco sistêmico aumenta. Programas de renegociação são essenciais para aliviar o estoque, mas o foco do debate nacional precisa migrar urgentemente para o custo do crédito e para a educação financeira estruturada.
Sem taxas de juros mais acessíveis e mecanismos eficientes de portabilidade, as famílias continuarão presas em ciclos viciosos de inadimplência.
Minha visão: O cenário exige cautela redobrada dos analistas e formuladores de políticas públicas. A resiliência do consumo geral esbarra na fragilidade financeira das classes de menor renda, o que pode limitar a sustentabilidade do ciclo econômico no médio prazo. Acompanhe os desdobramentos nas próximas leituras da Peic e da política monetária.